In 2014 textos antigo

Jornada da alma


Éramos em 3. A casa era apertada, desajeitada e cheia de remendos. A vida passava e continuávamos ali, estagnados estaticamente sem concordância .
Um dia a primeira parte de mim desvencilhou-se. Resolveu simplesmente partir. Era frágil, pequena, blanca e clamava por risos. Via em si toda a cheiura que jamais vira em nada. A casa diminuta era sua carapaça claustrofóbica. Atordoou-se e deixou-nos. A linha pontilhada tracejou, seu rumo foi tomado.

Corria desesperadamente num dia escuro. A segunda parte de mim acabara percebendo que a brisa esvaiu-se. Em seu rosto haviam anos, embora desapercebesse o que nestes havia passado.Correu até seus cabelos se congelarem com a brisa insensível. O desconhecimento atrelado a confusão de inseguranças desprendiam-na da existência.

Calada, parara. Ali aos pés do Salgueiro. Encolhera-se. Sem dizer ainda uma palavra, pensava no ar que não respiraria, no mundo que não sentiria. Desejou se jogar do mais alto penhasco e soprar na mesma obtusa, aguda imensurável frequência do vento. Num passo desceu ao fim e ascendeu para o início. A linha pontilhada se curvou, seu rumo foi tomado.

Desde a última partida passaram-se anos. A paisagem era a mesma. Paredes e mais paredes, por fim um infinito labirinto de espelhos refletindo vertentes de si mesma. Ficara desse modo solitária. Era a terceira parte que restara. Distorcia e retorcia, a imagem que via no reflexo imperava os mais profundos paradoxos mentais. De nada adiantara. Estava sozinha. Ficara apenas com os dotes deixados por suas vagantes partes. Percebeu sua inutilidade e começou a cantarolar para suprir a falta de sua vontade de sonhar e sua derradeira insuficiência pelo sentir. Quando menos percebeu, foi-se.

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